Cultura, Arte e Tecnologia

Todas as mulheres de Pamela Facco

Hoje apresentamos o belíssimo ensaio de retratos da jovem e múltipla fotógrafa Pamela Facco. A mObgraphia Cultura Visual fica muito orgulhosa de poder mostrar trabalhos como este, todo feito com smartphones e editado em aplicativos. Pamela é um super talento e você vai ouvir falar muito dela. Aliás, a menina está com “Entre o vazio”, uma belíssima exposição no ar aqui em SP, confira aqui.

7038_10151494539853367_1719613980_n

Pamela Facco percorreu um caminho sinuoso nas áreas das artes até chegar a fotografia. Designer gráfica por formação acadêmica, ilustradora nas horas vagas, fez cursos de desenho e pintura em renomadas escolas, como o Instituto Nacional de Artes de Buenos Aires, onde viveu em 2009. Na volta a São Paulo, começou a traduzir sua bagagem criativa em imagens fotográficas, as quais, desde 2010, priorizam o registro do humano. Sua primeira série é documental sobre as crianças da comunidade Jardim Ibirapuera. Com a sequência desse trabalho ganhou o prêmio Sony International Award Brasil 2012, com o qual foi convocada para uma residência artística em Londres.

No paralelo de seus trabalhos autorais, registra casamentos e retratos de família, o que a ajudou a sensibilizar seu olhar na captura de momentos íntimos e emocionantes, como também a se aproximar dos fotografados para descontrair e despertar a melhor imagem.

Nos últimos três anos, desenvolveu uma série fotográfica, ”Entre o vazio”,  sobre as areias do litoral paulista que participou da mostra Ritos e Rituais no Festival Foto em Pauta Tiradentes, de 2016, e que será exposta a partir do dia 25 de junho na Casa Jaya, em São Paulo. Sua trajetória culmina na série “Sobre mulheres e flores” que une todas as ramificações de seu trabalho em um projeto só: retrato, mulheres, família, alusão a pintura e o grande fluxo de imagens.

 

Todas as mulheres

Ao contrário do que diz a música, deixemos de lado as tais  mulheres de Atenas e miremos  nestas outras mulheres aqui fotografadas .  Dizia Simone de Beauvoir ” Eu quero tudo na vida. Eu quero ser uma mulher e ser homem, ter muitos amigos e ter a solidão,  trabalhar muito e escrever bons livros, viajar e me divertir, ser egoísta e não ser egoísta … É difícil obter todas que eu quero. ” Mas quando as mulheres podem ser todas?

As mulheres aqui retratadas por Pamela Facco também querem tudo mas não querem tecer bordados, mil quarentenas nem serem maltratadas violentamente a lhes arrancarem as carícias. Não são pequenas Helenas como cantou o poeta Chico Buarque certa vez. Elas possuem o que a fotógrafa mexicana Flor Garduño chamou de “Luz Interior”.

O gadget e os aplicativos aqui usados por ela  são instrumentos para criar  essa poesia, ou como escreve a poeta  Veronica Volkow Fernandéz, também mexicana:  “através do aparato fotográfico se captura a poesia além da exaustão da prosa cotidiana” . De fato  uma poderosa atmosfera através da metáfora da feminilidade traduzida por Pamela Facco em suas coloridas guirlandas, olhos d’água e tons suavemente pastéis,  fruto das sucessivas manipulações dos aplicativos Snapchat e Hipstamatic.

Seus olhares parecem não apontar presságios e sim refletir a relação mais íntima entre fotógrafa e modelo. O que nos leva a um interessante paradoxo na construção dessas imagens, feitas em apenas dois ou três shots e um relacionamento mínimo, criado ali pela empatia que  ora  surge do encontro casual, ora do premeditado. Não há cenas criadas e o confronto entre autora e modelo é superado no imediatismo e na proximidade que um gadget pode oferecer, diferentemente de uma câmera tradicional, especialmente aquela que não se mostra como uma prótese “flusserniana” e sim como um obstáculo ao relacionamento.

Pamela Facco faz retratos, mas ela os mostra como se fossem belas flores, daí a guirlanda a guiar o leitor na sua objetividade. Entretanto em mais um paradoxo estes surgem despojados de constrangimento. Há uma extraordinária naturalidade nos olhares, fruto dessa pequena interface entre a fotógrafa e seus “personagens” que é o pequeno e quase invisível aparelho celular.

Elas olham para algo que não sabemos, talvez para dentro de si mesmas  ou para um acontecimento futuro como “fortes”Cassandras em oposição as “belas” Helenas. Aqui o melhor delas não está na superfície e sim no que emana de seus interiores. Atitude franca  e não beleza construída.

Mulheres amigas, adolecentes da família, as colegas de estudo, as de trabalho, aquelas de muita história, as mais prosaicas, as mais intelectuais, filhas, netas, avós,  se unem em um vasto portifólio com as que andam pelas ruas, as que estão somente de passagem, as que surgem e desaparecem deixando apenas um sorriso. Mulheres!

Há apenas um rito a conectá-las, o processo fotográfico único da manipulação precisa dos aplicativos cujo mérito maior é encurtar essa distância a que a fala de Beauvoir se refere logo no começo deste texto. Não há uma única mulher, elas podem e devem ser todas, ou melhor ainda, pelo olhar de Pamela Facco elas são todas.

 Juan Esteves (fotógrafo, curador e crítico de fotografia)

Esta entrada foi publicada em junho 27, 2016 às 1:51 pm e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.
%d blogueiros gostam disto: