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Epecuén, a cidade submersa do interior argentino #mobtrips

Bianca Vasconcellos nos presenteia mais uma vez, com uma incursão Urbex (Urban Explorations) internacional. Desta vez, Epecuén, no interior argentino, que no passado foi uma cidade de veraneio, mas que em 6 de novembro de 1985, devido a uma seicha, uma espécie de onda estacionária, a cidade perdeu sua barragem, as marés começaram a subir e tudo foi inundado.

Os moradores tiveram tempo o suficiente para escapar, mas a cidade em si mergulhou num sonho longo e molhado. Resorts, casas, parques infantis e escolas foram todos perdidos.

Bianca foi sozinha, mas a gente acompanhou tudo desta aventura sensacional! Leia o relato, veja as fotos e viaje com a gente para a cidade submersa de Epecuén!

Você sabe que são 550 km até Epecuen? E vai sozinha? perguntou-me Juan, policial argentino, dando instruções no banco do carona do carro que aluguei em Buenos Aires, para se esconder da chuva, la lluvia, la lluvia… parceira no caminho para a terra que foi engolida pelas águas.
Juan não teve paciência para me esperar anotar no bloco de notas do celular, e desenhou o trajeto na janela.
com um gesto que já vi outros andinos fazer –  a mão fechada na altura do coração – ele me desejou “buena onda!”.
É claro que o desenho de Juan logo se evaporou e mais claro ainda que errei na direção.
Mas saquei logo que: #1- caminhoneiro argentino é o dono da estrada, #2- a paisagem dos pampas úmidos, é plana, aburrido (monótona) e bela.
Pelas indicações do GPS, eu já deveria ter chegado quando passei pelas paisagens abaixo. 
só estava feliz de ter deixado os caminhoneiros e a chuva para trás.
a estrada era só minha.
Quase oito horas depois, chego a Carhué onde ia passar a noite.
Descubro que a pousada está a seis km de Lago Epecuén. Corro para me agarrar a um resto de luz e ficar entre o som de pássaros  e o silêncio perturbador da paisagem que ficou sob as águas durante 25 anos.
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Eu sabia que teria que voltar antes do dia amanhecer.
A previsão dizia que o sol nasceria às 8:14. Com receio de perder os primeiros raios cheguei às 7 da manhã.
Fiquei esperando no começo da estrada, ainda ressabiada  para “mergulhar” em terras desconhecidas, num país onde não vivo e ainda percebendo uma camionete velha e barulhenta dando voltas pra lá e pra cá.
Abri o vidro do carro e “me apresentei” mostrando que era “una mujer solitaria”com um celular apontado para o horizonte.
Nos primeiros raios, era aqui onde eu queria estar: no Matadouro Municipal.
Construído em 1938, ele foi um dos primeiros da Argentina a ter fiscalização sanitária.
Quando as águas inundaram Epecuén, os funcionários ainda mantiveram as atividades, talvez porque ficasse no alto da vila, talvez porque era inacreditável que uma construção dessas um dia ficasse submersa.
O dia amanhece – sim, às 08:14 – e o cenário ainda está mais solitário e lindo à luz do dia.
na recepção da pousada, informaram que os grupos de turistas chegam a partir das dez.
Eu tinha menos de duas horas para desbravar a vila ouvindo só o barulho de aves e das águas.
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Uma placa anuncia que terrenos estão à venda.
Um altar em homenagem a El Gauchito, figura folclórica na Argentina que usava roupas vermelhas, indica que já tem gente vivendo em Epecuén.
Osvaldo Aberto Obando é um deles : “ainda bem que Epecuén reapareceu, não gosto do ruído das cidades”.
Os bezerros de outro morador pastam onde haviam trilhos da estação de trem.
O dono da casa responde ao meu aceno mas não quer conversa.
A antiga estação virou um museu, com fotos dos turistas que descobriram as propriedades medicinais das salinas de Epecuén no começo do século passado. Aqui aprendemos que por volta de 1770, os indígenas  foram expulsos pelos colonizadores espanhóis mas deixaram as digitais no nome da vila: Epe = quase + Cuén= assar, o que talvez seja uma referência ao ardor da pele queimada pelo sol e sal da salina.
As maravilhosas águas de Epecuen foram descobertas para tratamento de artrites,  artrose, reumatismo, em 1899 com a chegada a linha de ferro.
Mirta Stoessel era um dos 1.500 habitantes de Epecuén.
Ela tinha um hotel de vinte quartos antes da grande enchente.
O marido morreu seis meses depois da inundação. “Fiquei sozinha, com duas filhas pequenas, sem trabalho, sem dinheiro, nada”, Mirta me conta na pousada com dez quartos e um misto de tristeza e ira no olhar.
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Quando as casas, hotéis, balneários e o comércio vieram à superfície, os moradores vieram e reconheceram os imóveis da vila.
As placas informam de quem era o açougue, a confeitaria, o hotel, e, algumas contam detalhes da resistência de um dos donos a deixar o hotel construído na década de 70.
Naquela que foi a casa, confeitaria e depois salão de baile dos Coradini, imaginei como devia ser quente esta parte da Argentina que recebia no verão até 25 mil turistas, a maioria da alta sociedade de Buenos Aires.

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Diferente de Chernobyl onde os imóveis estão destruídos pelo tempo, em Epecuén, a destruição é essencialmente feita pela inundação.
Penso em  Atlântida, um mito, mas isto é  Epecuén, de verdade.
Fico imaginando como deve ter sido difícil para os moradores se reconhecerem entre tantos escombros e ruínas depois que a cidade ressurgiu.

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No meio dos escombros, Emiliano Landi, professor de música em Mar Del Plata, me oferece o primeiro retrato de gente nas ruínas.
Ele também é um fotógrafo apaixonado por lugares abandonados.
Raras construções preservam as paredes e o teto de pé.
em todas, uma surpresa: o tijolo que ressurge das águas salgadas é vermelho, muito vermelho.
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São onze horas da manhã, e os turistas já podem ser ouvidos de longe.
tenho pouco tempo para terminar de clicar as ruínas e voltar para a estrada rumo a Buenos Aires.
O caminho é longo e deserto, e não, não tem nenhum lobo mau por perto.
Antes de deixar a vila, um policial me parou para fazer controle de visitas e me levou a um posto de gasolina e uma pensão para comer um desayuno – me lembrei que estava ali desde às sete da manhã sem nada no estômago.
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Enquanto sigo o policial + clics de Epecuen.
É sempre muito difícil dizer a adeus à paisagens tão impactantes e cheias de histórias.
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Saindo de Carhué, encontro Pollo e Luciana numa rotunda (rotatória) na estrada.
Dou carona aos namorados em últimos dias de férias da Universidade de Mar Del Plata.  Ele estuda música, ela dança.
Fomos conversando e, nos perdendo (de  novo), até o posto da locadora do carro em Buenos Aires.
Lá encontraram um cantor e me pediram para fazer uma foto.
As fotos para a Mobgraphia Cultura Visual foram captadas com o celular  MotoXplay  e editadas com os apps VSCO e/ou Snapseed.
Dedico este trabalho às minhas filhas Luisa e Lorena, que estavam no meu coração o tempo todo me incentivando a ir até o fim.
Bianca Vasconcellos @bivasc
Esta entrada foi publicada em agosto 3, 2016 às 12:21 pm e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.
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