Cultura, Arte e Tecnologia

Arte X Fotografia – Leitura da semana

 

Nota da mObgraphia:

Discussão antiga e ao mesmo tempo atual. Porque a fotografia ainda não alcançou o patamar de valorização da arte contemporânea? Valores negociados em galerias de arte quando comparados com as vendas das fotografias ‘fine art’ são muito, muito diferentes.

O fotógrafo John Mireles joga uma luz sobre o assunto e ajuda a formar um quadro mais consistente das razões (muito mais por culpa dos próprios fotógrafos) desta realidade. 

Conversamos com ele esta semana e ele nos deu autorização para traduzir e publicar este artigo que a gente considera muito interessante. Boa leitura!

Porquê Fotógrafos Não Entendem de Arte Moderna

John Raymond Mireles

É compreensível que a massa ignara das grandes populações não aprecie arte contemporânea.  Mas seria de se esperar que os fotógrafos, criativos por natureza, apreciassem a arte e a criatividade de outras pessoas nas suas mais variadas formas. Em vez disso, o que tenho visto, em se tratando de arte contemporânea, a maioria (mas nem todos!!) dos fotógrafos tende a repudiar o trabalho de imediato.  Ao invés de serem mais abertos às obras de arte contemporâneas, os fotógrafos, na verdade, tendem a ser mais depreciativos.

Eu mesmo, sendo fotógrafo, estremeço quando escuto meus colegas se encherem de desprezo com relação a obras de arte reconhecidas quando estas não satisfazem seus conceitos prévios do que deveria ser considerado como “boa arte”. Algumas vezes tenho vontade de gritar ao ver um post depreciativo nas mídias sociais, “Só porque você não entende, não significa que seja ruim!” No entanto, mais do que simplesmente um motivo de discórdia, a arte contemporânea é importante para os fotógrafos tanto como fonte de inspiração como de criatividade. Ao dedicar algum tempo para se envolver com as práticas artísticas atuais, os fotógrafos continuam a desenvolver seu trabalho, melhoram sua própria posição no mercado e chegam mesmo a abrir caminho para se tornarem, eles próprios, artistas completos.

No mínimo, como disse um fotógrafo amigo meu, “É uma conversa que vale a pena ter”.

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Two Fossils, 2017 John Raymond Mireles

O que é (e o que não é) Arte Moderna?

Antes que possamos mergulhar nas razões pelas quais os fotógrafos tendem a evitar a arte “moderna”, temos que entender primeiro sobre o que exatamente estamos falando.  Embora a maior parte das pessoas considere como sendo “arte moderna” toda obra de arte não convencional ou de vanguarda, tanto deste século como do século passado, na verdade, o rótulo de arte moderna se aplica a um segmento e a um estilo específicos de obras da primeira metade do Século XX.  Desde então, vimos vários estilos artísticos — do expressionismo abstrato ao minimalismo e à arte pop — prevalecerem por curtos períodos de tempo.

À medida que escrevo este texto, há uma miríade de estilos e tipos de obras e portanto, não existe apenas um rótulo que se aplique às obras criadas desde os últimos 30 anos até o momento.  O termo pós-modernismo é frequentemente utilizado para descrever obras recentes, porém a designação é, na verdade, um movimento filosófico, não um estilo visual específico. As obras atuais reconhecidas pelo mundo artístico como sendo “Arte” são geralmente denominadas arte contemporânea — o que pode abranger pintura abstrata, algumas fotografias, performance artística, arte conceitual, instalação artística e assim por diante.  Obras mais tradicionais, como paisagens, esculturas de bronze com temas ocidentais e cães jogando pôquer, embora possam ter sido criadas por artistas que ainda estão produzindo, geralmente não são consideradas arte contemporânea.

Para fins deste artigo, usarei o termo “arte contemporânea” em vez de “arte moderna” para me referir às formas de arte não tradicionais aqui em questão.

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Supply & Demand, 1972 por Carl Cheng

Ao ver obras como essa acima, não é raro ouvir queixas como: “Isso não é arte”. “O que isso quer dizer?” “Onde está o talento?” “Isso é chato”, e a mais ouvida “Eu poderia ter feito isso”. Quando você olha para a foto abaixo, Rheine II de Andreas Gursky, pode ser que todas essas críticas venham à sua cabeça enquanto pensa no fato de que, ao ser vendida, durante um leilão em 2011, pela quantia de $ 4,3 milhões, essa imagem se tornou a fotografia mais cara já vendida.

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Rheine II de Andreas Gursky

Uma Breve História da Arte

Se você é fotógrafo e está pensando com seu botões como é que essa foto pode valer tanto, é importante, primeiramente, conhecer um pouco de história. Retrocedendo cerca de 200 anos, antes que a fotografia existisse como meio, a pintura funcionava como o principal método de comunicação visual. Se alguém quisesse compartilhar uma história visualmente, teria que pintá-la. Após a chegada da fotografia, no entanto, a pintura começou a passar por uma crise de identidade, uma vez que a fotografia representava o mundo tridimensional sobre superfícies bidimensionais de forma mais conveniente e precisa.

Nesse meio tempo, a fotografia tentava se estabelecer como forma de arte. É claro que a fotografia era boa para retratos e paisagens, mas tratava-se de arte com A maiúsculo? Vendo como a arte era dominada pela pintura, os fotógrafos começaram a tentar fazer com que suas fotos ficassem mais parecidas com pinturas. Desses esforços nasceu o estilo conhecido como pictorialismo. Fotos suaves, oníricas, muitas vezes desprovidas de detalhes precisos se tornaram o estilo do momento no final dos anos 1800.

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London, 1899 por Leonard Missonne

Então tínhamos nesse momento fotógrafos se esforçando para invadir o território dos pintores e pintores questionando a relevância de seu meio — a ponto do pintor francês Paul Delaroche declarar de forma memorável que a “fotografia havia matado a pintura”. A arte, como os artistas a conheciam, estava em debate e sob ameaça.

A resposta a esse dilema existencial surgiu na forma do Modernismo — um movimento que é provavelmente mais fácil e apropriadamente compreendido no contexto da expressão frequentemente ouvida “a forma segue a função”. Aplicando-se essa máxima à fotografia, argumentou-se que o que a fotografia consegue fazer melhor do que qualquer outro meio é reproduzir, de forma eficiente e eficaz, o mundo visível em uma superfície plana. Se concordarmos que isso, portanto, corresponde à sua função, então, de acordo com o pensamento modernista, a forma da fotografia deveria consistir em imagens que utilizam todas as capacidades técnicas da câmera e do meio de captura para transmitir fielmente o máximo de informações sobre a cena sendo documentada.

Provavelmente, o epítomo do fotógrafo modernista é alguém que você jamais associaria ao movimento: o emblemático fotógrafo de paisagens Ansel Adams. De forma excepcional, Adams criou imagens nítidas em frente e verso, desenvolveu um sistema usado ainda hoje para extrair cada bit de informação de seus negativos (o Sistema de Zonas), compôs suas imagens com rigorosa exatidão e criou algumas das fotografias tecnicamente mais precisas de todos os tempos.  Até hoje, praticamente todos os fotógrafos adotaram os princípios modernistas exemplificados por Ansel Adams e por muitos outros, de Richard Avedon a Sebastião Salgado, que seguiram o rastro deixado por ele.

Se você é fotógrafo, sem dúvida também se inclui nesse grupo. Quer tenha se dado conta ou não, você é um modernista!

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The Tetons and the Snake River, Grand Teton National Park, Wyoming, 1942 de Ansel Adams.

Enquanto isso, de volta ao mundo da pintura, essa noção de que a “forma segue a função” levou os pintores a uma direção completamente diferente. Se a função da pintura já não era mais a reprodução realista do mundo visual — esse agora era um trabalho para a fotografia — então estava livre para perseguir outras representações não realistas de tempo, espaço e forma. Por exemplo, em vez de uma única perspectiva espacial, múltiplas perspectivas (ou até mesmo nenhuma) poderiam ser incorporadas a uma única pintura. Pense no Les Demoiselles d’Avignon (As Senhoritas de Avignon) de Picasso, em que seus nus ocupam um espaço indefinido, ou no Nude Descending a Staircase (Nu Descendo uma Escada) de Duchamp, que retrata uma figura abstrata ao longo de vários pontos no tempo.

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Les Demoiselles d’Avignon, 1907 de Pablo Picasso

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Nude Descending a Staircase, 1912 de Marcel Duchamp

Portanto… os dois meios abraçaram o Modernismo de forma similar, mas com resultados opostos: A fotografia entusiasticamente perseguindo o realismo, enquanto a pintura abandonava o realismo em favor de abstrações conceituais. Quando entendemos essa divergência de propósito, fica fácil ver como os fotógrafos, tão impregnados pela tradição modernista de criar a realidade com exatidão, podem ter dificuldade em aceitar uma obra que ignora tão fortemente essa realidade.  Infelizmente, para os fotógrafos, a situação se complica ainda mais…

Embora o Modernismo ainda domine o mundo da fotografia e daqueles aficionados por ela, foi em grande medida abandonado pelos artistas que trabalham com a fotografia como meio.  Em vez de composições únicas e da luz na hora mágica, os fotógrafos artísticos geralmente adotam uma perspectiva uniforme, objetiva, para todas as suas composições.  O instantâneo direto de um objeto banal sob uma luz normal é um motivo comum na fotografia artística. O que o mundo artístico considera “arte”, normalmente os fotógrafos consideram entediante.

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Series de Bernd e Hilla Becher

Essa estética direta e tecnicamente sem refinamento, usualmente denominada “olhar inexpressivo”, também foi aplicada ao retrato.  Compare esse retrato de Alec Soth, favorito do mundo artístico, com um retrato mais estilizado — e mais “fotográfico” digamos — de Mark Seliger. Embora comercialmente popular, a obra de Seliger dificilmente pode ser encontrada nas listas dos círculos de arte contemporânea.

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de Sleeping by the Mississippi, 2002 de Alec Soth

Na foto de Mark Seliger abaixo, o artifício (guarda-roupa e acessórios), a iluminação elegante, a expressão e a beleza física do retratado — todos elementos importantes para fotógrafos profissionais — constituem um anátema para a estética da arte contemporânea.

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Image de Mark Seliger

Fotógrafos artísticos nem sequer precisam mais criar fotos, uma vez que o importante não é tanto a obra de arte e sim a aceitação conceitual subjacente.  Por exemplo, esta imagem de Richard Prince é na verdade uma foto que ele retirou de um antigo anúncio de Marlboro dos anos 70. Fora de seu contexto original, a imagem agora é uma “Desconstrução de um arquétipo americano”. A foto de Prince é uma cópia (a fotografia) de uma cópia (o anúncio) de um mito (o cowboy).” Que este plágio tenha alcançado $ 3,4 milhões em um leilão serve apenas para fazer com que os fotógrafos se sintam enojados com todo o gênero de fotógrafos artísticos contemporâneos.

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Untitled 1989 de Richard Prince

Em essência, o que o mundo da arte contemporânea está dizendo aos fotógrafos, basicamente, é que “Todas as coisas com as quais vocês se importam: domínio técnico, composição criativa e até mesmo originalidade de conteúdo, já não importam mais”. Ui.

Seria fácil dizer que tudo que importa é a ideia ou a emoção evocada — mas isso não seria verdade. Pelo contrário, o que importa para a máfia do mundo da arte contemporânea (curadores, diretores de galeria e críticos de arte) é como a obra e o conceito por trás da obra referem-se a alusões que fazem parte da cultura, da filosofia e de outras obras de arte, presentes e passadas. E ah, sim, se a obra for bem feita (ou feita por alguém famoso), melhor ainda.

Fotografia versus Arte Contemporânea

Essa relação entre a fotografia e a arte contemporânea se torna ainda mais complicada, porque no outro lado da equação — o lado da pintura e da arte tridimensional — o afastamento da arte também se intensificou.  Em sua separação do realismo, a arte vem se dedicando cada vez mais a explorar conceitos e filosofias e menos ao progresso da arte por seus méritos estéticos. A arte pós-moderna, especialmente, consiste em dissecar as perspectivas históricas e denunciar as narrativas tradicionais.  Basicamente, você não faz ideia do que está vendo, nem de como julgá-lo, a não ser que leia o normalmente denso depoimento escrito do artista, afixado em uma parede ao lado.

Quando se espera que o espectador compreenda conceitos como simulacro, desconstrução e semiótica para apreciar uma obra de arte, não é de surpreender que até mesmo mecenas experientes “não a entendam”. Como se queixou um professor de fotografia aposentado, “Sempre tenho a sensação de estar começando a ouvir uma história no meio, tentando acompanhar”. (De um artigo intitulado “A Disturbing Trend in Photography (Uma Tendência Perturbadora em Fotografia)” Petapixel 2016.)

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por John Raymond Mireles

Essa ideia de que se deve ler documentação adicional para entender uma obra de arte contradiz aqueles valores modernistas tão caros aos fotógrafos — especialmente o princípio de que uma imagem deve ser completa em e por si mesma. Uma imagem de sucesso na tradição modernista usa seus elementos visuais para construir uma narrativa que seja compreensível para os espectadores sem necessidade de informações externas. Quando se vê essa imagem editorial criada por mim (acima) da mulher usando uma lingerie sexy, intuitivamente se entende a história que está sendo contada.

Compare com a instalação artística de Tracy Emin (abaixo) em que é muito fácil perguntar, “Que diabos?” No entanto, a ambígua “My Bed” fez parte da shortlist do prêmio Turner e é considerada uma obra seminal por um dos revolucionários YBAs (Young British Artists – Jovens Artistas Britânicos). Foi vendida em um leilão por $ 2,5 milhões.

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My Bed, 1998 deTracy Emin

Últimas Reflexões

Por mais doloroso que isso possa parecer para muitos, a profissão e o estudo da fotografia estão presos em um beco sem saída evolucionário. Mesmo que continuem a existir muitas imagens incríveis, até mesmo emblemáticas, a serem criadas nos próximos anos, enquanto a fotografia estiver vinculada às limitações do modernismo, é improvável que seja aceita no mundo da arte contemporânea.  O conjunto da obra deste último continuará a se desenvolver e a crescer (e a vender por quantias de dinheiro ainda maiores) enquanto a fotografia — na forma como é praticada pelos fotógrafos — será sempre deixada para trás.

Há alguns anos, encontrei o fotógrafo de paisagens Jeff Mitchum durante um por do sol sobre o mar que nós dois fotografávamos. Queixava-se, com perceptível amargura, que apesar do fato de sua obra ser vendida a clientes de todo o mundo em galerias na luxuosa La Jolla e no Bellagio Hotel em Las Vegas, o curador do museu local não retornaria suas ligações e muito menos mostraria seu trabalho.  Obviamente, ele não havia conseguido entender a divisão entre arte contemporânea e fotografia — e de que lado se encontrava.

Nesse caso, o importante para os leitores interessados em penetrar no ambiente da arte contemporânea é não cometer o mesmo erro. Sim, pode ser necessário estudar um pouco de arte e história para compreender o mundo aparentemente denso da arte atual, mas descobri que quanto mais sei sobre meu ofício e minha arte, mais fundamentadas serão as decisões que poderei tomar à medida que avanço em minha carreira.

Talvez na próxima vez que você estiver em uma galeria de paredes brancas (ou olhando para as fotos da gravidez da Beyonce) e se vir frente a frente com uma estranha miscelânea de conteúdo pouco elaborado e que aparentemente não faz sentido, você consiga entender melhor porque o artista fez as escolhas que fez. Quem sabe? Você pode até gostar.

Tradução: Emilia Flavia Ortiz Ramos

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John Mireles

Fotógrafo baseado em NY, com trabalho autoral diferenciado, atua também nas áreas comercial/editorial.

Site: http://www.jraymondmireles.com/

Instagram: @johnmireles e @newyorkcontemporaryart

 

Esta entrada foi publicada em março 8, 2017 às 8:24 am e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.
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