Cultura, Arte e Tecnologia

Por que o conceito de narrativa é tão difícil de compreender para os fotógrafos iniciantes?

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O cantor, músico e apresentador de rádio Jarvis Cocker. Contratado pela revista The Guardian Weekend. © Grant Scott 2016

 

Os escritores acreditam que a leitura é a base para uma boa escrita. Tudo se deve à leitura —os bons, os medíocres, os ruins e os verdadeiramente terríveis, sem que se faça nenhuma separação entre os lugares em que as palavras escritas aparecem, a forma ou a razão pela qual foram criadas. Fiz uma analogia com esse assunto e o ensino da fotografia como linguagem visual  e agora gostaria de estender essa analogia à saída lógica para os elementos conectivos da linguagem  — a narrativa.

O amor pela leitura é algo que aqueles como nós que gostam de ler assume como natural. Mas em um ambiente formal de educação, em que geralmente o ato de ler é visto como obrigação, a alegria da leitura na primeira infância pode se extinguir fácil e rapidamente. O resultado é uma rejeição a todas as formas de leitura e, por conseguinte, à narrativa.

Quando perguntei aos alunos que estavam esperando para iniciar seus estudos de fotografia na universidade o que haviam lido, invariavelmente encontrava um sentimento de confusão. Por que eu estava perguntando sobre livros quando o que eles queriam era estudar fotografia? Essa confusão continuava a ocorrer conforme eu perguntava que filmes haviam assistido recentemente e quais diretores de cinema admiravam. É claro, o elemento de conexão entre essas duas formas criativas é a narrativa, e é o prazer e a compreensão da narrativa que eu busco em suas influências culturais populares. Infelizmente, isso raramente fica claro.

Esse vínculo entre as práticas criativas e a disposição para questionar e inquirir parece ser raridade em uma geração para quem a capacidade de descobrir nunca foi tão fácil ou esteve tão disponível. Além da rejeição à leitura, também há a obsessão com a imagem única. Acredito que, de várias maneiras, a razão para essas duas situações negativas pode ser atribuída às plataformas digitais que fizeram tanto bem ao conectar a comunidade fotográfica global.

O número limitado de caracteres do tweet e a preocupação com uma única imagem no Instagram podem reduzir tanto a amplitude da atenção como a oportunidade de desenvolver narrativas complexas e cheias de nuances.

As duas plataformas podem ser elementos extremamente positivos quando inseridas na prática profissional de um fotógrafo, mas também podem dominar a apresentação das imagens e sua criação. Trata-se de plataformas em que tanto as narrativas de curto prazo como as de longo prazo podem ser exibidas de forma eficaz, mas para que isso aconteça, o fotógrafo precisa entender a construção da narrativa, não apenas por meio da criação, mas também por meio da edição.

A arte da edição é uma habilidade que pode levar anos para se dominar caso se baseie na experiência em fotografar e no desenvolvimento do conhecimento visual e, portanto, não seria realista esperar que um fotógrafo novato possuísse imediatamente a capacidade de saber quais são as imagens que conduzem, direcionam e comunicam a narrativa. Muitos alunos de fotografia conhecem apenas suas próprias imagens na forma de resultados iluminados em uma tela, visualizados em tamanho e número determinados pelo tamanho dessa tela.

Acredito que é essencial incentivar os alunos a se afastar da tela digital como ambiente primário de edição. Eles deveriam imprimir seu trabalho de forma rápida e barata em um tamanho que permita que a imagem seja vista claramente. Deveriam dispor suas imagens sobre o piso, pois assim poderiam começar a vê-las como o conjunto da obra em desenvolvimento. Não se trata de uma novidade para o fotógrafo experiente, mas normalmente é uma revelação em termos de forma de pensar e ver para muitos fotógrafos iniciantes.

Plataformas digitais, e a forma na qual os alunos interagem com elas, devem ter alguma responsabilidade pela falta de percepção da importância da narrativa ao se contar uma história visualmente. Consequentemente, a compreensão do poder de narrativa da fotografia é o aspecto que mais deve ser trabalhado pelo conferencista ou professor.

Incentivar os alunos a ver a fotografia como algo mais do que a criação de uma única imagem “de sucesso” requer que eles vejam a importância da narrativa para se contar uma história nas práticas criativas associadas, desde letras de músicas a artigos de notícias, contos e longas metragens. Essas áreas possuem uma sinergia criativa com a fotografia, mas isso nem sempre é óbvio para quem estuda fotografia.

Sem se envolver com a compreensão de uma narrativa para além da prática fotográficacombinada ao divertimento de se contar históriasé impossível desenvolver uma narrativa como fotógrafo. Também é extremamente difícil ensinar narrativa a pessoas que nunca a consideraram como um aspecto essencial da fotografia.

Ao utilizar a palavra narrativa com relação à fotografia, não estou restringindo a área de discussão ao trabalho documental. A criação da narrativa é uma habilidade essencial, qualquer que seja a área de especialização em que o fotógrafo atue, de moda a alimentação, interiores, natureza morta, esportes, retratos, notícias ou carros.  É a criação da narrativa que não apenas satisfaz um desejo pessoal, como o briefing de um cliente.

Nos últimos anos, ao discutir com fotógrafos sobre a conexão entre a criação de imagens em movimento e fotografia, frequentemente uso a analogia entre a tradicional folha de contato analógica e a importância do storyboard para um cineasta. O sentido de uma narrativa se desenvolvendo ao longo de uma série de imagens consecutivas é fácil de explicar a partir dessa perspectiva, mas com os quadros digitais, as imagens são raramente vistas e estudadas nesse contexto de progressão narrativa.

Por que o conceito de narrativa é tão difícil de compreender para os fotógrafos iniciantes? Porque é um conceito desconhecido para eles. É algo que eles dão como certo e que não questionam, algo que as plataformas digitais de compartilhamento visual não incentivam. Porque é algo que se deixa por último em termos de formação, em favor das habilidades técnicas, da proficiência em pós-produção e de outros aspectos fotográficos que atendem a uma matriz de marcação facilmente implementada. E no entanto,  da mesma forma que ocorre com a escrita, o estabelecimento de uma narrativa claramente definida e desenvolvida é a base de todas as histórias bem contadas.

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Grant Scott é o fundador/curador da United Nations of Photography, Conferencista Sênior sobre Fotografia Editorial e Publicitária na Universidade de Gloucestershire, fotógrafo em atividade e autor de Professional Photography: The New Global Landscape Explained (Focal Press 2014) e The Essential Student Guide to Professional Photography (Focal Press 2015).

É possível pesquisar imagens criadas com photosketching seguindo #photosketching no Instagram. Também é possível seguir Grant no Twitter e no Instagram e no UN do Medium.    Veja o trabalho dele em www.grantscott.com.

Imagens e texto © Grant Scott 2016 – 

Tradução: Emília Flávia Ortiz Ramos

 

Esta entrada foi publicada em março 16, 2017 às 9:12 am e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.
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